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Destralhar

Plano B da Vida

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Plano B da Vida

Destralhar: o prazer de ajudar (e algumas surpresas)

Quando começamos a destralhar a casa, uma das opções é doar as coisas a uma instituição de solidariedade social. 

Momento de confissão:

Inicialmente, olhei para os locais como a solução rápida para desocupar a casa de itens que já não desejava, mas aos poucos fui tendo algumas surpresas. 

 

Descobri que gosto de comprar roupa usada

Nunca tinha visto as lojas sociais como um local onde pudesse comprar roupa. Puro snobismo. Um dia vi uma mesa com roupa nova, ainda com as etiquetas e passou-me a nojice. Depois, passei a olhar, não só para itens com etiqueta nova ou da marca xpto, mas como tendo roupa para mim e ponto final.

De vez em quando, vou a uma loja onde sei que há uma boa selecção de calças de ganga (o meu "uniforme") e compro-as a €1.00. Consegui comprar 5 durante um ano (eu sou esquisita, só uso clássicas, escuras e sem decorações). 

 

Descobri que me sinto menos culpada quando compro roupa usada

Eu tento poupar dinheiro e, quando falamos de comprar roupa, isso significa roupa barata. Mais, tenho sobrinhas a quem gosto de ajudar com vestuário. Tudo junto, é muito dinheiro.

Mas, na verdade, é-me cada vez mais difícil fugir à realidade dos custos humanos e sociais da roupa barata. É barata porque é feita por autênticos escravos laborais, porque os materiais são de má qualidade, porque as fábricas não têm preocupações ambientais. 

Sinto-me culpada por saber que estou a preferir não comprar produtos feitos cá, que beneficiam os nossos trabalhadores, as nossas cidades, a nossa economia. Sinto-me culpada por perpetuar autênticas fábricas de escravidão humana.

Ao comprar roupa usada, sinto que estou a sair desse círculo vicioso e a ajudar a combater o desperdício. 

 

Descobri um local onde "alugar" puzzles a €1.00

Sempre foi um dos meus passatempos preferidos: puzzles. Por isso, gosto de os dar às minhas sobrinhas. O problema é que são tão caros! 

Problema resolvido quando descobri que conseguia comprar puzzles usados por €1.00. 

Quando forem bem usados, basta voltar a doá-los. No fundo, é uma espécie de aluguer ;)

 

Descobri projectos de solidariedade locais

Quando comecei a destralhar, naturalmente que tentei o que fosse mais próximo. Foi nessa busca que descobri e passei a conhecer melhor as instituições sociais do local onde moro. Saber que estou a ajudar a minha comunidade, é muito satisfatório.

Doei um televisor e leitor de DVD à minha CERCI. Doei coisas para serem vendidos pela minha associação de apoio a idosos. Doei itens para serem trocados por bens alimentares, na loja solidária da minha Junta de Freguesia. E finalmente, tenho uma lista de pequenas coisas que vou fazer (artesanato) para que possam ser vendidas/trocadas.

Há um enorme sentimento de ligação ao local onde vivo e às pessoas que o habitam, sejam as que ajudam ou as que são ajudadas.

 

Ou seja, destralhar tem-me permitido dar mais e sentir um maior sentido de pertença em relação à minha comunidade. O que pode ser melhor que isto?

O maravilhoso mundo de um bolso esquecido

Descobri uma página interessante que eleva o conteúdo que ficou esquecido nos nossos bolsos a uma forma de arte. 

Imaginem todos os pequenos objectos do nosso dia: um bilhete de comboio ou de cinema, uma foto, um pacote de açúcar com publicidade, um talão de uma compra de um livro. Tudo que são coisas que até são descartadas no final do dia, mas que são uma cápsula do que é viver hoje.

Agora imaginem esse "lixo" daqui a 100 anos. Imaginem esses pequenos objectos da vida diária como são vistos por nós, o mesmo tipo de objectos, de há 100 anos atrás.

 Uma ideia interessante, não é?

 

Mas descobri muito mais que isso, que em pequenas cidades existem pequenas associações de pessoas - Keeping Societies - que se dedicam a preservar desde o efémero do dia a dia, ao arquivo histórico de uma cidade ou vila. No fundo, preservam a memória local que não é tratada por museus e outros meios de preservação. 

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